O Brasil vive hoje um processo silencioso de colonialismo digital. Empresas estrangeiras — como Netflix, Amazon e outras big techs — ocuparam nosso mercado audiovisual com uma estratégia agressiva de expansão, drenando bilhões em lucros para fora do país e ameaçando nossa soberania cultural e econômica. O que se apresenta como “inovação” é, na verdade, a nova forma de privatização global: a uberização do audiovisual.
Colonialismo Digital
Imagine que uma economia desenvolvida observa o setor de serviços de um país em desenvolvimento. A conclusão imediata, vista de cima, é de desorganização: Corridas de táxi, locação de imóveis, serviços de entrega, aluguel de filmes, diaristas, comércio e até bancos… tudo poderia ser organizado e prestado de forma mais eficiente. Essa mentalidade de “melhoria” é o ponto de partida para a invasão de mercado que chamamos de uberização.
Agora, imagine que essa mesma economia se beneficia, há quase um século, de uma política fiscal expansionista marcada por juros baixos e altos déficits. Essa conjuntura predadora, cria um reservatório inesgotável de capital de risco para o empreendedorismo. Nesse cenário, o setor público e o privado operam em conjunto, irrigando a economia com recursos praticamente infinitos do chamado venture capital.
A soma entre excesso de capital e narrativas de eficiência resulta em algo perigoso: um processo de colonialismo digital, que tem invadido o setor de serviços de economias emergentes, marcadas pelo arrocho fiscal, altas taxas de juros e políticas radicais de corte de investimentos.
Em meio a um cenário de pouca inovação, e ausência de investimentos, a chamada “uberização” foi vista como positiva — um sinônimo de modernidade. Não é raro ouvir alguém desejar que determinado setor fosse “uberizado” para funcionar melhor. Mas a verdade é que a uberização é o maior vetor de precarização da mão de obra dos países em desenvolvimento.
Blitzscaling: a escalabilidade relâmpago
Nos Estados Unidos, esse fenômeno expansionista tem nome: blitzscaling — ou escalabilidade relâmpago. Trata-se de uma estratégia empresarial baseada na lógica de ser o “primeiro a entrar e vencer”.
Ela consiste em aceitar perdas financeiras massivas e ineficiências operacionais no curto prazo para conquistar o mercado antes que surjam concorrentes — e, sobretudo, antes que o Estado desperte do sono profundo para regular o setor.
Quando o domínio de mercado se consolida, a empresa abandona os investimentos iniciais, começa a recuperar seus aportes e transfere o custo social do negócio para o poder público. É quando o Estado entra em cena para mitigar as externalidades negativas. Dado brutal: os motoboys são os maiores doadores de órgãos do Brasil, em virtude do alto índice de acidentes fatais que os vitimam diariamente no Brasil. E a conta vai para o Sistema Único de Saúde, e não para o Ifood.
No início, é um paraíso
A chegada da Uber ao Brasil, em 2014, é a parábola perfeita desse ciclo. No início, vivenciamos uma verdadeira “lua de mel”: o serviço era barato, os ganhos dos motoristas eram altos e o discurso da inovação seduzia.
Mas a fase de blitzscaling sempre tem fim. Quando o mercado amadurece, o modelo de negócios se revela pelo que é: uma estrutura de precarização disfarçada de eficiência. O lucro inimaginável das plataformas é sustentado por uma força de trabalho que precisa se submeter a condições cada vez mais extenuantes para obter rendimentos cada vez menores. Neste momento, estas empresas começam a retirar bilhões das economias emergentes e remeter à suas matrizes.
O audiovisual é o novo campo de batalha
O setor audiovisual brasileiro vive hoje sua própria fase de blitzscaling. Netflix, Amazon e outras big techs seguem a mesma lógica: expansão rápida, domínio de mercado e captura do ecossistema produtivo. A ameaça que elas representam não é de esquerda nem de direita — é uma questão de soberania nacional.
O discurso da eficiência esconde um movimento global de colonização digital: empresas estrangeiras tomam setores estratégicos de países em desenvolvimento, exploram sua força de trabalho e exportam o lucro. O nome disso é perda de soberania nacional.
Regulação e interesse nacional
A chamada regulação do VOD (video on demand) — ou regulação do streaming — busca criar um marco legal que defenda o interesse nacional e garanta espaço para a produção independente, espinha dorsal do audiovisual brasileiro.
Hoje, o PL 8889/2017 é o projeto escolhido para avançar no Congresso Nacional. Ele estabelece mecanismos de incentivo à presença de obras brasileiras nos catálogos, protege as salas de cinema da competição predatória das plataformas e, sobretudo, obriga essas empresas a contribuírem para o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) — algo que as empresas nacionais já fazem há anos, enquanto as gigantes estrangeiras lucram bilhões sem contribuir com um centavo.
No entanto, o substitutivo apresentado pelo Deputado Doutor Luizinho (PP/RJ) representa um ataque direto ao interesse nacional. Ele permite que as plataformas abatam até 70% do que devem à Condecine-Streaming investindo em si próprias — inclusive com recursos públicos oriundos de isenções fiscais — para licenciar obras e produzir seus conteúdos “originais”. Na prática, o texto legaliza o desequilíbrio e rompe com a espinha dorsal do setor audiovisual brasileiro, que é a produção independente.
Soberania não é pauta de governo
No futuro, compreenderemos o erro histórico de polarizar o tema da soberania. Ao tratá-lo como uma bandeira partidária, desperdiçamos a chance de unir o país diante de uma ameaça externa real.
Se o relatório do Deputado Luizinho for aprovado como está, será um atentado contra a soberania do Brasil. Em dez anos, o setor audiovisual se verá tomado por empresas internacionais, perderemos a autoria sobre nossos bens culturais, e nossos profissionais se tornarão meros trabalhadores de plataformas: cineastas de aplicativo.
A regulação do streaming não é disputa ideológica. É defesa da soberania nacional.

Publicado originalmente no portal Tela Viva em 30/10/2025.
